terça-feira, 29 de abril de 2014

 Ensaio sobre um desabafo

 De repente, todas as palavras bonitas e bem impostas me vieram à mente, como se as milhares de páginas lidas nos últimos meses tivessem finalmente completado seu ciclo e parado em meu discurso. Eram palavras firmes, com significados fortes e, por vezes, cortantes. Passaram dos meus dedos às teclas como um vinho encorpado, que embriaga a delicadeza do espírito e cumpre seu papel tal qual manda o roteiro. E foram taças desse vinho.
 No momento seguinte, a ressaca. Ressaca de sentimentos, desgaste de momentos lindos em um fim melancólico e banal como todos os outros. Uma história que teria ganho mérito no realismo, com um mistura do clássico e do romântico: uma ousadia que quase deu certo.
 Mas e quanto aos finais? Que vida redonda é essa que insiste em se refazer em novos corpos, novas feições? Ainda há de encontrar por aí uma alma que deteste formas tanto quanto eu, que enxergue o universo particular, essa bolha, que partilham as pessoas capazes de amar o outro como se ama a si mesmo.
 O abraço

 Abraço é respeito, cumplicidade, intenção – saber abraçar é quase uma arte. Estar nos braços de outro alguém, sentir o carinho, o afeto e toda a energia boa que transita entre os corpos. Há quem diga achar ali o melhor lugar do mundo, há quem diga que abraços falam. Conforto, segurança, saudade. Um ato simples, nem sempre comum, que carrega a força de milhares de sensações. Aproxima raças, cores e credos, dispensa fórmulas e protocolo – embora muitos afirmem que o melhor abraço é aquele bem apertado, que junta e aquece coração com coração. Abraço de pai, mãe, avós, amigos, amantes, colegas, ou até do desconhecido que passa todo dia por nós. O abraço é a expressão pura e máxima do sentimento.



Quarta-feira, 04 de Julho de 2012

 O dia amanheceu confuso; quebrei o despertador. Uma voz dizia ‘decide agora, decide agora, decide agora’. Era sonho.
 Levantei atormentada, dando-me conta do que se passava. Dia de semana, horário de aula. Eu de pijama, olhando para o relógio, examinando a consciência e, ah, agora foi!
 Só me perguntava até quando faria dessas. Ficar em casa, negar o mundo, adiar o tempo comum e viver o tempo para mim. Se bem me lembro, perdi uma prova nesse dia. E quanto importa? Tomei meu café no copo, engoli o pão com certa desvontade. Dois livros me chamavam na cabeceira da cama.
 Inundei o pensamento com palavras contrárias, permiti-me entrar no mundo inventado de outro alguém. Que poderes absurdos têm os livros! Deliciava-me a sensação de liberdade ao fazer minhas escolhas erradas e viajar dentro de meu próprio quarto.
 Mas a realidade é insistente. Vinha-me à mente a imagem de meus pais decepcionados, lá longe. Encarava o relógio e pensava ‘já foi’. Quantos já foram? Isso trazia à tona as boas almas que um dia me fizeram feliz. Quanta vida houve lá atrás. Ecoavam então as palavras de uma professora ‘quem não vive, não tem história para contar’.
 E o que é vida? Parava. Bem sabia que uma vez abrindo caminho a esses pensamentos, tudo estaria perdido, de novo.

domingo, 26 de maio de 2013

Diga-me que ainda podes ver ovelhas em caixas.
Diga-me que entendes a necessidade de espinhos nas flores.
Diga-me que não suportas as barreiras da liberdade.
Diga-me que sabes dar valor aos vulcões extintos de teu próprio mundo.

terça-feira, 5 de junho de 2012


 Num dia qualquer, voltou com a insegurança de quem sai do casulo. Era como se o mundo lá fora fosse uma queda livre a qual não sabia se valia a pena se expor. Não queria sair.
 Fechada em seu mundo, sentia o turbilhão de ideias e sensações que circulavam por ali. Tomava um café para disfarçar, inventava duas ou três desculpas mal contadas e voltava aos devaneios. Sabia que não era certo, sentia o peso da irresponsabilidade, mas ainda assim era mais forte.
 Tentava encontrar explicações razoáveis, que ao menos justificassem a impotência diante do mundo real. Vivia um meio sonho, uma meia fantasia, uma meia realidade. Era metade vida, metade inquietação.
 Vez ou outra se deparava com alguma resposta que ia de frente com os seus anseios – e a deixava passar. Mergulhada nessa confusão, continuava andando, parada.

terça-feira, 15 de maio de 2012

(...)
 Embora ela fosse - substancialmente - humana, sua alma era de anjo; em volta dela havia uma aura de paz, pureza e amor que tocava as pessoas de longe, só pelo fato de estar ali.
 Ela falava em vida, mas ninguém entendia; ela falava em amor por decisão, julgavam-a louca; ela falava em respirar o prazer, aproveitar o momento, enxergar o que não se vê. Mas ela falava, e, ao falar, perdia a essência das coisas secretas.

terça-feira, 8 de maio de 2012


 É fácil olhar pro céu e sorrir, dizer ao mundo que é feliz e que essa felicidade depende inteiramente de você; é fácil enxergar as coisas bonitas e os sorrisos sinceros; é fácil estender a mão, fazer uma boa ação, cuidar do planeta. Falar e fazer é fácil, o difícil é sentir.
 Não se é feliz a todo instante, não se quer a todo momento, não se tem certeza uma vida inteira. A verdade é que a felicidade é um sentimento redondo: de dentro pra fora, de fora pro outro, do outro pra dentro; tem que haver reciprocidade.
 Ser feliz é sentir o outro em sua essência. É amar por amar, não por gostar. É precisar de um abraço, de um beijo na testa, de um olhar sonolento. A felicidade é como uma nuvem: precisa de ventos que a levem – e esses ventos somos nós.