terça-feira, 23 de setembro de 2014

colhendo justificativa qualquer na satisfação alheia,
encontro meus reflexos na parte amarga do outro que já não vê o que é
cantando melodias à toa no achismo de um ninguém,
porque ninguém é nada, e nada é ser,
o ser da angústia
o ser liberto que alimenta o vulto na luz negra do mar sem véu,
um palhaço pra além seguir dócil o papel do nada 
que é o ser
colhendo justificativa qualquer em satisfações alheias

terça-feira, 17 de junho de 2014

Saio de amarras usuais por falta de força de reciprocidade,
se é pra ser só, que seja com a insegurança de uma liberdade quase sonhada.
Que me perdoe a carência de quase não importar o que outrora já foi demasiado importante,
que me perdoe o salto de convicções sem paraquedas, o estilhaço de medos cômodos, de situações cômodas, de pessoas cômodas em seu vícios comportamentais.
Que me reserve os fins a não tentação de ser previsível,
que me reserve o amor a compreensão de coisas que não se compreendem e não são compreendidas.
Que me aceite o mundo submerso de uma alma inquieta, de uma mente vacilante, de um coração necessitado de emoções que gritam,
gritam alfabetos e gritam Foucault,
gritam geocentrismos e aspirações cósmicas que tão pouco entende,
gritam mesmo sem querer gritar o grito que rasga na cólera ressentida de uma não mais amarra.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

sinestesia urbana; 
assaltos silenciosos à essência

sons abafados de medos comuns, 
sinto-me vivo, estado de alerta.
roubam-me a essência de atos falhos,
só meus
perco-me na sinestesia de um ônibus lotado, 
de cheiros ocres,
de olhares cansados de uma rotina imposta.
roubam-se uns aos outros a energia limpa de cada corpo
roubam-me a clareza da alma em sutis atos falhos,
só deles
sente-se alto, Estado de alerta
assalto à matéria-prima do ser.

desolados cíclicos de um caos temporal

terça-feira, 29 de abril de 2014

29 de abril, Dia Internacional da Dança

 Mais do que um dia cheio de movimento, mais do que fotos dançantes, mais do que o amor que quem dança sente a cada passo: hoje vejo a necessidade de falar sobre o RECONHECIMENTO da DANÇA enquanto ARTE. E aqui, deixo em aberto alguns questionamentos a respeito da dança no nosso país...
 Afinal, qual é o espaço da dança no Brasil hoje? Onde vemos a dança nas nossas cidades? Com que honestidade estamos lidando com as mais diversas técnicas de movimento e possibilidades do corpo? Nossos professores são qualificados? Nossos dançarinos sabem algo além dos passos de suas respectivas modalidades? Que representação temos junto aos órgãos responsáveis pelo investimento em arte no país?
 Por que ainda vemos brasileiros que acham que dança de qualidade é perna no alto, giros e saltos intermináveis? Por que o nosso povo ainda não tem acesso a outras formas de se fazer a dança ou por que ainda não temos bagagem cultural suficiente para entender espetáculos mais complexos? Por que precisamos morar em regiões metropolitanas, ou nos deslocarmos até elas, para ter acesso a tudo isso? Por que dependemos de editais públicos, que por vezes se mostram com curadoria duvidosa, para mostrar a nossa arte?
 Como disse uma professora minha, “é revoltante que o artista brasileiro tenha que mendigar edital para receber investimentos do governo, como se o povo que faz arte só precisasse comer e pagar contas quando são selecionados em algum edital”.
 E para finalizar: o que nós, artistas (ouso rotular-me assim também), estamos fazendo pela nossa arte? Cada um é, em parte, responsável pela realidade em que vive. Precisamos ter consciência de nossa posição político-social e que nossas ações, por mais que atinjam minorias, podem sim contribuir positivamente para o desenvolvimento artístico-cultural da cidade em que vivemos.
 Ensaio sobre um desabafo

 De repente, todas as palavras bonitas e bem impostas me vieram à mente, como se as milhares de páginas lidas nos últimos meses tivessem finalmente completado seu ciclo e parado em meu discurso. Eram palavras firmes, com significados fortes e, por vezes, cortantes. Passaram dos meus dedos às teclas como um vinho encorpado, que embriaga a delicadeza do espírito e cumpre seu papel tal qual manda o roteiro. E foram taças desse vinho.
 No momento seguinte, a ressaca. Ressaca de sentimentos, desgaste de momentos lindos em um fim melancólico e banal como todos os outros. Uma história que teria ganho mérito no realismo, com um mistura do clássico e do romântico: uma ousadia que quase deu certo.
 Mas e quanto aos finais? Que vida redonda é essa que insiste em se refazer em novos corpos, novas feições? Ainda há de encontrar por aí uma alma que deteste formas tanto quanto eu, que enxergue o universo particular, essa bolha, que partilham as pessoas capazes de amar o outro como se ama a si mesmo.
 O abraço

 Abraço é respeito, cumplicidade, intenção – saber abraçar é quase uma arte. Estar nos braços de outro alguém, sentir o carinho, o afeto e toda a energia boa que transita entre os corpos. Há quem diga achar ali o melhor lugar do mundo, há quem diga que abraços falam. Conforto, segurança, saudade. Um ato simples, nem sempre comum, que carrega a força de milhares de sensações. Aproxima raças, cores e credos, dispensa fórmulas e protocolo – embora muitos afirmem que o melhor abraço é aquele bem apertado, que junta e aquece coração com coração. Abraço de pai, mãe, avós, amigos, amantes, colegas, ou até do desconhecido que passa todo dia por nós. O abraço é a expressão pura e máxima do sentimento.



Quarta-feira, 04 de Julho de 2012

 O dia amanheceu confuso; quebrei o despertador. Uma voz dizia ‘decide agora, decide agora, decide agora’. Era sonho.
 Levantei atormentada, dando-me conta do que se passava. Dia de semana, horário de aula. Eu de pijama, olhando para o relógio, examinando a consciência e, ah, agora foi!
 Só me perguntava até quando faria dessas. Ficar em casa, negar o mundo, adiar o tempo comum e viver o tempo para mim. Se bem me lembro, perdi uma prova nesse dia. E quanto importa? Tomei meu café no copo, engoli o pão com certa desvontade. Dois livros me chamavam na cabeceira da cama.
 Inundei o pensamento com palavras contrárias, permiti-me entrar no mundo inventado de outro alguém. Que poderes absurdos têm os livros! Deliciava-me a sensação de liberdade ao fazer minhas escolhas erradas e viajar dentro de meu próprio quarto.
 Mas a realidade é insistente. Vinha-me à mente a imagem de meus pais decepcionados, lá longe. Encarava o relógio e pensava ‘já foi’. Quantos já foram? Isso trazia à tona as boas almas que um dia me fizeram feliz. Quanta vida houve lá atrás. Ecoavam então as palavras de uma professora ‘quem não vive, não tem história para contar’.
 E o que é vida? Parava. Bem sabia que uma vez abrindo caminho a esses pensamentos, tudo estaria perdido, de novo.