quinta-feira, 17 de março de 2011

A bailarina da caixa

 Uma caixa a mais na estante. De madeira, discreta. Desperta pouco interesse, atrai somente curiosos e dispostos - dispostos a abrir a caixa e não temer achar nada lá dentro -. É assim que me vejo, como uma caixa, uma caixa de música. Uma vez aberta, toca a primeira nota, acorda a bailarina que gira lentamente conforme a música. E é assim que se comunica com o íntimo de cada um, com os sonhos, o brilho no olhar. Se pedir que fale, vai enrolar-se toda, pois ela dança e só assim pode falar. Dizem que ao som do piano de fundo, ela é de alma - e só assim sabe ser -, e quando a música acaba, a bailarina descansa, abre a gaveta e, no canto, acha o papel dobrado.
 O bilhete, este do canto da gaveta, é um festival de palavras; atiradas, jogadas, sinceras, reais, fortes e o outro dela. O outro lado dela. Que revela a escritora, a fotógrafa, a desenhista, a que toca violão, a que tem distúrbio gastronômico, a que ama balé e dança contemporânea, é amiga, filha adolescente. Gosta de ler. E sonha, tem milhares de sonhos. Dentre eles, o de sair da caixa de madeira e ir rodopiar nos palcos do mundo.